ISAMB PARTICIPA EM LIMPEZA COSTEIRA

ISAMB PARTICIPA EM LIMPEZA COSTEIRA

Integrado no Dia Internacional de Limpeza Costeira, promovido pela Fundação Oceano Azul, o Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa associou-se à Associação Bandeira Azul da Europa (ABAE) e à Câmara Municipal de Almada numa iniciativa de limpeza de praia, que decorreu no passado dia 19 de Setembro.

Sob a ameaça da depressão Paulette, que no dia anterior tinha feito estragos nos Açores, a primeira luz da madrugada revelou um dia ameno. Alegrados pela maresia e pela marulhada, os 28 participantes foram-se aproximando, com a segurança imposta pelas actuais circunstâncias pandémicas, do areal da praia da Mata, uma das praias da Costa da Caparica. As bandeiras azuis marcavam o ponto de encontro.

Catarina Gonçalves, coordenadora nacional da ABAE, começa por fazer uma apresentação inicial sobre o tipo de lixo que é mais comum encontrar numa praia. Independentemente da forma ou da sua utilidade, a composição do material é denunciada. O plástico prevalece, em várias escalas, desde os brinquedos de plástico perdidos durante um dia de praia, acumulados até onde a maré é capaz de chegar, passando pelos invólucros das palhinhas e os pauzinhos do chupa, até aos fragmentos de plástico que se reduzem à nanoescala, impossibilitando a sua identificação. As beatas são também comuns. Curiosamente, a maior parte delas chega à praia, não pelas mãos de um fumador imprudente, mas pelo mar que as recebeu através dos escoamentos das águas pluviais que vêm dos sítios onde vive gente e usa as sarjetas como caixote do lixo. De facto, segundo a Organização das Nações Unidas, cerca de 80% do lixo marinho tem origem em actividades que são desenvolvidas em terra. Aqui, o dito popular não se aplica. Aqui, o tanto é à terra.

Explicações e instruções dadas, dúvidas seladas, chega o momento da apanha. Munidos de luvas e de um saco, os participantes espalham-se pelo areal. Há quem prefira o lixo mais miúdo, há quem prefira o lixo mais graúdo. Os sacos vão-se enchendo há medida que o tempo passa. O mar, esse, é tentador. Meio suados, a vontade de um mergulho refrescante é imediatamente frustrada por uma bandeira vermelha e o olhar reprovador de dois nadadores-salvadores. Ao fim de uma hora e meia, reúnem-se os sacos para uma breve apreciação da «pescaria» da manhã. Os suspeitos do costume lá estão. Como é costume. Plástico. Muito plástico. Demasiado plástico. Plástico que, estima-se, seja responsável pela morte de cerca de 1 milhão de aves marinhas, mais de 100 mil tartarugas, focas e baleias, e ainda um número indeterminável de peixes. Depois, as beatas. Algum vidro. Bastantes cordas e pedaços de redes de pesca. A matrícula de um barco. Muitos atilhos e elásticos de cabelo. Um cartucho de uma espingarda. Uma garrafa de vidro, de um licor da moda, sem qualquer mensagem no seu interior. A imagem do lixo amontoado é absolutamente desoladora.

O impacto de todo este lixo, seja ele costeiro ou subaquático, não é apenas um impacto que se circunscreve aos ecossistemas marinhos, já de si terrível. Há também um impacto nos ecossistemas terrestres e, muito em particular, embora de difícil percepção, na nossa qualidade de vida e no nosso bem-estar. Afinal, há mar e mar, há ir e voltar. Os microplásticos, por exemplo, estão já presentes na cadeia alimentar humana. Um estudo publicado na revista científica Environmental Science & Technology, em 2019, estimou que o consumo anual de microplásticos, por parte de um adulto mediano, varia entre 39 mil e 52 mil partículas, dependendo da idade e do sexo. Os efeitos concretos na saúde são ainda pouco conhecidos, mas é provável que esses efeitos sejam tudo menos benéficos ou desprezíveis, tanto no curto prazo como no médio e longo prazo.

O ronco do estômago anuncia as horas, ainda que a vontade de comer seja pouca. Embora o impacto desta iniciativa tenha sido praticamente nulo, tendo em conta a dimensão da tragédia, talvez este tempo passado à beira-mar tenha contribuído, não apenas para o lamento, mas para a mudança. Nem que seja de um. Só um. Por um, terá valido a pena.

ISAMB/FMUL

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