Vinte centímetros separam jovens mais altos dos mais baixos e a explicação pode estar no que comem

Vinte centímetros separam jovens mais altos dos mais baixos e a explicação pode estar no que comem

O ditado popular diz-nos que deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer. No entanto, tão ou mais importante que uma boa noite de sono é aquilo que se come. Esta é a conclusão de um artigo recente, publicado na prestigiada revista britânica The Lancet, que reuniu 65 milhões de crianças e adolescentes de 197 países.

Os jovens mais altos do mundo estão em países como Holanda, Montenegro, Estónia, e Bósnia e Herzegovina, para os jovens com 19 anos, e Holanda, Montenegro, Dinamarca e Islândia, para as jovens. Já os mais baixos encontram-se em Timor-Leste, Laos, Ilhas Salomão e Papua Nova Guiné, para os jovens, e Guatemala, Bangladesh, Nepal e Timor-Leste, para as jovens de 19 anos. Uma diferença de 20 cm separa os mais altos dos mais baixos.

Para além da altura, neste estudo foi também avaliado o índice de massa corporal (IMC), que relaciona o peso e a altura e que é usado habitualmente como um indicador do estado de desenvolvimento e saúde. Contas feitas, os jovens com valores de IMC mais elevados encontram-se nas Ilhas do Pacífico, no Kuwait, nas Bahamas, no Chile, nos Estados Unidos da América e na Nova Zelândia, para jovens de ambos os sexos. Por sua vez, países como a Índia, o Bangladesh, Timor-Leste, Etiópia e Chade registam os valores mais baixos, para jovens de ambos os sexos, e o Japão e a Roménia nas jovens.

A explicação para as diferenças de altura entre os diferentes países tem sido focada nos factores genéticos associados a características regionais. Os holandeses e os dinamarqueses, por exemplo, sempre foram altos e os guatemalenses e os timorenses sempre foram baixos. Porquê? Ora, justamente por serem holandeses, dinamarqueses, guatemalenses ou timorenses. No entanto, quando se compara a evolução do crescimento ao longo do tempo, e se compara essa evolução entre diferentes populações, percebe-se que há outros factores envolvidos no jogo das alturas. A este propósito, um outro estudo, publicado em 2016, analisou os dados da altura de 18,6 milhões de adultos ao longo de um século (1896-1996). Curiosamente, de acordo com este mesmo estudo, os homens iranianos nascidos em 1996 eram cerca de 17 cm mais altos do que aqueles nascidos em 1896, e as mulheres sul coreanas 20 cm mais altas. Por outro lado, em alguns países da África Subsaariana e do Sul da Ásia não se verificaram alterações assinaláveis.

Hoje sabe-se que, para além dos factores genéticos, o ambiente e a nutrição surgem como determinantes cruciais no desenvolvimento das crianças e adolescentes. A começar logo na vida intrauterina que é, também ela, afectada por factores ambientais e de nutrição. De um modo geral, os factores socioeconómicos e ambientais, em particular aqueles relacionados com a saúde e a qualidade de vida das populações, reflectem-se na estatura. «Diz-me quanto medes e eu dir-te-ei o que comes», seria uma boa reformulação. Daí que, nos últimos 35 anos, o maior aumento da altura média se tenha registado justamente em países com economias mais pujantes, como é o caso da China ou da Coreia do Sul, e, em sentido contrário, em contextos marcados pela pobreza, como na África Subsaariana, se tenha observado uma estagnação ou até uma regressão do crescimento, quando comparados com gerações anteriores.

 

«De pequenino é que se torce o pepino»

Os investigadores observaram que, em alguns países, as crianças até aos 5 anos apresentavam valores médios de altura e de peso dentro de intervalos considerados saudáveis pela Organização Mundial de Saúde. De acordo com Osvaldo Santos, um dos autores do estudo, «a nível mundial, existe muita investigação de qualidade feita em crianças até aos 5 anos. A partir desta idade, que coincide com a entrada na escola, e até à idade adulta, existem muito menos dados, nomeadamente ao nível da monitorização da altura e do peso», pelo que este estudo, ao reunir dados de crianças e jovens até aos 19 anos, veio «colmatar uma importante lacuna», afirma o psicólogo clínico e coordenador do Laboratório de Comportamentos de Saúde Ambiental do Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

De facto, com o avançar da idade, verifica-se um aumento excessivo de peso que não é compensado por um crescimento proporcional em altura, dando assim origem a problemas de saúde como a obesidade e a diabetes. De acordo com Osvaldo Santos, «o investimento na boa nutrição das crianças e adolescentes em idade escolar é fundamental para uma transição saudável para a idade adulta». Propõe, por isso, que sejam criados sistemas de monitorização contínuos ao longo de toda a infância e juventude que permitam superar a escassez de dados. «Só com esta informação será possível tomar medidas para garantir que as deficiências alimentares que colocam em risco a saúde, quer por carência quer por excesso, são efetivamente corrigidas, em particular em grupos sociais mais vulneráveis», acrescenta.

Ademais, é igualmente importante o desenvolvimento de uma estratégia que passe pela implementação de programas de nutrição e promoção de saúde ajustados à realidade de cada país. Se, por um lado, nos países com baixo rendimento, haverá a necessidade de melhorar as condições de vida e promover o acesso a cuidados de saúde e a uma alimentação de qualidade, por outro, nos países com elevado rendimento, a estratégia deve centrar-se na correcção de comportamentos prejudiciais para a saúde, nomeadamente através de programas que promovam uma alimentação saudável e também a actividade física. «É preciso uma intervenção estratégica, que alie a consciencialização à criação de condições para se comer melhor e para se ser mais ativo», diz Osvaldo Santos. «Mais do que dizer às pessoas o que é ou não correto», acrescenta o psicólogo clínico, «dever-se-ia criar mecanismos, individuais e contextuais, que capacitassem as pessoas para fazer as escolhas certas nos momentos certos».

 

Inês Grosa
ISAMB/FMUL