UMA TESE DE DOUTORAMENTO QUE NÃO FICARÁ NA PRATELEIRA

UMA TESE DE DOUTORAMENTO QUE NÃO FICARÁ NA PRATELEIRA

O momento é solene. Perante um júri exigente e um público distante, no passado dia 24 de Fevereiro, Daniel Salvador defendeu a sua tese de doutoramento. Nela evidenciou a importância da monitorização dos vírus entéricos, tanto em águas residuais como em águas para consumo humano. Fez a sua apresentação inicial, procurou responder às perguntas dos membros do júri, discutiu resultados, métodos. No meio de algum ruído, ouviu palavras de reconhecimento pelo seu trabalho, pela sua dedicação, pela sua resiliência. No final, foi aprovado, tornando-se assim no segundo a concluir o Programa de Doutoramento EnviHealth&Co. «Já em criança dizia que um dia havia de tirar um doutoramento», confessa. Esse dia chegou aos 28 anos de idade.

«Não queria uma tese que fosse para a prateleira, queria uma coisa que tivesse uma aplicabilidade prática, que eu visse um resultado»

Daniel Salvador concluiu o curso de biologia em 2012. Embora pouco convencido, teve uma experiência na área da zoologia. Porém, a saúde era o que o mais cativava. Assim, cativado e motivado, inscreve-se no Mestrado em Biologia Humana e Ambiente, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Logo aí começa a interessar-se pelas águas, tendo apresentado uma dissertação sobre cianobactérias tóxicas. A parte laboratorial do seu trabalho é feita no Instituto de Saúde Doutor Ricardo Jorge.

Terminado o mestrado, em 2014, concorre a uma bolsa individual de doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Fica dois lugares abaixo da linha de corte. «Uma frustração», admite. É então que toma conhecimento do Programa de Doutoramento EnviHealth&Co. Ao contrário dos programas convencionais, agrada-lhe a ideia de ser um programa que procura estabelecer uma ponte entre o meio académico e o meio empresarial, que tem por missão contribuir para o aumento do número de doutorados nas empresas portuguesas. «Não queria uma tese que fosse para a prateleira, queria uma coisa que tivesse uma aplicabilidade prática, que eu visse um resultado», afirma Daniel. Ademais, tinha uma ambição. «A EPAL, talvez desde o início, foi sempre a empresa que eu tinha já debaixo de olho, por ser a empresa de águas de referência».

«outra coisa que me cativou foi a abrangência, o facto de termos inúmeras áreas, de termos tido aulas com prelectores de inúmeros países, com imensa qualidade»

Concluído o ano curricular, que considera ter sido um dos pontos fortes deste programa – «outra coisa que me cativou foi a abrangência, o facto de termos inúmeras áreas, de termos tido aulas com prelectores de inúmeros países, com imensa qualidade» –, em Novembro de 2017 começa a trabalhar na EPAL para aí desenvolver a parte experimental do seu projecto de doutoramento. Escolheu a área da microbiologia, mas agora para trabalhar com vírus, em particular vírus entéricos.

Uma simples gota de água do mar tem aproximadamente 10 milhões de vírus, embora a maioria seja fagos, isto é, vírus que infectam bactérias. O projecto do Daniel consistiu fundamentalmente no desenvolvimento de métodos de detecção e de quantificação de um conjunto de vírus entéricos. Estes são encontrados em águas residuais e são responsáveis por diversas doenças, nomeadamente gastroenterites. A verdade é que os sistemas de tratamento destas águas nem sempre são 100% eficazes na inactivação destes vírus. Torna-se, assim, necessária a criação de sistemas de monitorização e de sinalização em águas residuais. Ao fim e ao cabo, foi isto que o seu projecto de doutoramento procurou fazer. Ou seja, implementar mais um ponto de controlo da qualidade das águas, tanto residuais como para consumo humano, contribuindo, em última análise, para o aumento da confiança dos cidadãos nas empresas que têm como responsabilidade garantir essa qualidade.

O percurso foi estimulante, mas sinuoso. Um projecto é sempre um projecto, tem sempre uma incerteza a ele associado. Um incêndio no laboratório onde trabalhava e uma pandemia foram eventos que ninguém foi capaz de imaginar, muito menos de antecipar. Ainda assim, perante a adversidade, perseverou. A boa relação com a empresa, o apoio constante das pessoas e das instituições, contribuíram em muito para que Daniel tivesse conseguido avançar. E chegar ao fim.

«Nunca me senti desamparado por estar fora da academia»

Grande parte do seu tempo na empresa foi passado na empresa. Não é que estivesse afastado da academia, mas era ali que ficava o seu laboratório, era ali que estava a desenvolver o seu trabalho. O meio empresarial e o meio académico são muito diferentes, mas não são incompatíveis. «Nunca me senti desamparado por estar fora da academia», afirma. «Sempre que precisava do ISAMB, tinha sempre resposta, sobretudo por parte da Dr.ª Ana Virgolino, que foi sempre fantástica». Ademais, a EPAL é uma empresa que está já habituada a acolher estudantes de mestrado e de doutoramento que vão ali fazer os seus estágios.

O que correu menos bem, então? «O preconceito aconteceu com as minhas provas», confessa. Perante um júri académico, notou-se uma certa impaciência e desconfiança por parte de alguns perante alguém que fez o seu trabalho experimental numa empresa, fora do meio académico. Porém, Daniel recusa assumir o papel de vítima, pois sabe que a inovação causa sempre resistência. E este é, garante, um programa de doutoramento inovador.

«Teria tomado a mesma decisão»

Daniel acaba de ser contratado pela EPAL. Um doutoramento concluído. Um doutorado numa empresa. O objectivo foi atingido. Porém, há uma pergunta que se impõe. Feito o percurso, teria o Daniel tomado a mesma decisão em candidatar-se ao Programa de Doutoramento EnviHealth&Co? «Teria tomado a mesma decisão», afirma, depois de uma pausa. Admite que há sempre as dificuldades associadas a uma primeira edição, com particular destaque para as burocracias, sempre tão impiedosas, acredita que, apesar de ter sido um percurso espinhoso, aprendeu-se muito, evoluiu-se muito. «A próxima edição será certamente melhor», diz, ainda que guarde para si o orgulho de ter pertencido à primeira edição. «Vou pertencer sempre à primeira edição».

Chegado ao fim, no princípio de um outro caminho, Daniel deixa um conselho a quem está a pensar fazer o percurso neste programa de doutoramento: «Vão com um espírito resiliente, porque as coisas nunca irão correr como planeamos, e vão com motivação, e espírito aberto, com vontade de aprender novas áreas, novas técnicas, de conhecer novas pessoas.»

ACI
ISAMB/FMUL

Foto gentilmente cedida pelo Doutor Daniel Salvador